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Arqº Enrico Benedetti
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Pedro Paulo de Melo Saraiva Construtor da história da arquitetura Minha conversa com Pedro Paulo de Melo Saraiva durou uma tarde inteira. Mas garanto que passei lá toda uma vida. Fui tragada para dentro de um mundo onde a arquitetura que nos ensinam em livros, nos mostram em slides ou despontam como referência brasileira tinha nascido. De seu escritório, na zona central da cidade de São Paulo, pude avistar longe. Enxerguei Brasília e um plano piloto de 1956. Também pude tocar nas curvas do concreto da belíssima Escola Superior de Administração Fazendária, na capital, projeto de 1973. De lá fui para o sul e conheci a Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina, de 1957, e o Palácio da Justiça, de 1968, vencedores de concursos públicos. Do sul voltamos para São Paulo, onde Saraiva projetou edifícios emblemáticos, como o 5a Avenida (1959), o Pedra Grande (1962), o Acal (1974) e o Armoni (1976). Além dos prédios residenciais destacou vigas na sede do Clube XV, em Santos, em 1963, e conferiu curvas ao Esporte Clube Sírio, em São Paulo, três anos depois. Grande parte dos projetos privilegiou o material por excelência das décadas de 1960 e 70: o concreto. Mas como representante genuíno de uma geração que elegeu o material como ponto de partida, suas obras têm a densidade da primeira intenção, "intenção nobre", como dizia Lucio Costa, e o peso da história. Saraiva já foi coordenador de escritórios e centros de planejamento, como a Emurb (Empresa Municipal de Urbanização), foi diretor do IAB, professor da FAUUSP e é professor do Mackenzie, onde se formou em 1955. Hoje divide seu escritório com Fernando de Magalhães Mendonça e Pedro de Melo Saraiva. Apesar de tanta história, me concentrei no presente, e em meio à crise, à produção atual de arquitetura e à política, terminei minha viagem. Os arquitetos brasileiros sempre conviveram, em maior ou menor grau, com um mercado restrito, marcado pela pouca produção. Agora, em tempos de crise, a situação deve ter piorado. Como está o mercado? A atividade do arquiteto sempre ondulou em meio à política e à economia, mas agora estamos em meio a uma crise econômica em que o governo não lidera mais as encomendas. Essa crise atingiu os profissionais de várias maneiras. O escritório tem vários projetos nos Emirados Árabes que simplesmente pararam, agravados pela queda do preço do barril do petróleo. E aqui no Brasil o mercado parou também para observar o panorama mundial, em compasso de espera. Mas o agravamento dos problemas na produção arquitetônica no Brasil começou lá atrás, no plano Real.
Infelizmente com o Plano Real veio a Lei de Responsabilidade Fiscal que obriga os municípios a fazer uma previsão orçamentária, que malgerenciada pode paralisar e restringir o Estado. Desse modo as obras públicas, estímulo grande aos jovens arquitetos, pararam. Não se faz mais escolas, rodoviárias, postos de saúde. E junto com tudo isso diminuiu brutalmente o valor dos honorários, nossa profissão se "proletarizou".
Além da lei de responsabilidade fiscal, o PAC esbarra na famigerada lei 8.666, de contratações de serviços pelo menor preço. Imagine um projeto ter de ser contratado pelo menor preço. Ficamos totalmente desprotegidos. Essas coisas foram se somando e fomos tolerando, até o ponto em que estamos hoje.
Claro que sim! O que falta é vontade política de valorizar a profissão. Veja você, vão fazer salas de dança ao lado da Sala São Paulo, a maior terá apenas 1,5 mil lugares. Isso não é nada quando se fala em uma cidade de dez milhões de habitantes. E quem chamaram para fazer? Um escritório estrangeiro, Herzog & de Meuron. Por quanto? Por milhões. Ou seja, uma discrepância. Isso só mostra que é possível, mesmo dentro da lei, prever uma verba significativa para o projeto, quando se quer privilegiar o conhecimento técnico. E mostra também que além de todas as limitações da profissão, estão entregando obras, antes disputadas por arquitetos brasileiros, a escritórios estrangeiros, e sem concurso.
Não acho que a falta de um conselho próprio seja a raiz dos problemas. É claro que poderíamos estar falando a mesma língua e ter mais peso, mas a grande vilã é a lei 8.666. Essa lei é uma das maiores, senão a maior responsável pela decadência do projeto. Mas concordo que nossa profissão se dividiu muito, perdemos foco. Antes o IAB concentrava vários segmentos de atuação, tínhamos a comissão de urbanismo, de defesa de classe, de ensino, desenho. E hoje temos várias associações apartadas: a de paisagismo, de planejadores, de desenho industrial, temos o sindicato e até a AsBea. Agora voltamos a nos unir para criar o CAU. Foi muito complicado unir tantos interesses, mas quem sabe essa união possa nos fortalecer no futuro
Quando fiz a requalificação do Mercado Municipal em São Paulo algumas premissas não foram acatadas. Pedi piso de madeira de ipê, que não apodrece, e removível para conter todas as instalações. Fizeram um piso de granito com 2 cm de espessura, nada quando se fala em alto tráfego, que pede mínimo de 4 cm. Resultado: está quebrando tudo, vão ter que trocar. É algo que aborrece muito, a ingerência indecente do Estado e seus prepostos, colegas nossos que se formaram há pouco tempo, com pouquíssima experiência e já querem mandar. Fonte: POR SIMONE SAYEGH FOTO MARCELO SCANDAROLI - AU - Piniweb |
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