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Alvaro Puntoni Fala sobre sua trajetória profissional
Vivendo entre as salas de aula, os concursos públicos e os projetos desenvolvidos em seu pequeno estúdio ou em parceria com outros escritórios - seja em horário comercial ou à noite e nos fins de semana -, Alvaro Puntoni experenciou a arquitetura brasileira e latino-americana nas últimas décadas. E fala, em entrevista à AU,sobre a prática do projeto, o ensino de arquitetura e seu percurso Um dos mais brilhantes arquitetos formados no período da redemocratização do País, Alvaro Puntoni vem se destacando, desde o início de sua carreira, por uma produção projetual rigorosa, criativa e austera, conciliada a uma intensa atividade didática. Arquiteto, mestre e doutor pela FAUUSP, seus projetos refletem o profundo respeito à arquitetura moderna brasileira, do mestre Artigas aos cariocas Reidy, Lelé e Niemeyer, que embasam seu trabalho até hoje. Inicialmente associado aos colegas Angelo Bucci e Alvaro Razuk, abriu escritório no Conjunto Nacional, na Av. Paulista, logo transformado em um espaço privilegiado para a discussão da arquitetura. Nessa fase inicial, junto com Angelo Bucci, venceu o importante concurso para o pavilhão do Brasil na exposição de Sevilha, onde puderam aplicar livremente suas ideias até então limitadas a projetos residenciais para clientes de recursos limitados. A experiência na participação de concursos públicos, que ele considera importante não só por estimular o debate, mas também como forma democrática de permitir o acesso ao trabalho, vem sendo continuamente repetida nos últimos 20 anos, muitas vezes em dupla com Bucci, ainda que estejam em escritórios separados. Hoje, seu Gruposp é um espaço aberto a debates sobre a produção da arquitetura e se destaca como uma organização flexível, que admite colaborações e parcerias de outros profissionais. Como professor, Puntoni leciona na Escola da Cidade, da qual também é sócio-fundador e coordenador do conselho de graduação, além de atuar na FAUUSP e na Universidade Anhembi-Morumbi. Atuando desde cedo, seu trabalho tem sido reconhecido com premiações em concursos e com um número de clientes cada vez mais significativo. Como você avalia o seu percurso? Isso é muito relativo, se há sucesso, ele não veio rápido, trabalhamos muito... E não é fruto de um projeto, mas de um procedimento, de procurar entender a arquitetura, de conduzir bem as relações tanto pessoais quanto profissionais... A minha experiência com o Angelo Bucci e o Alvaro Razuk desde a faculdade foi importante e decisiva para a carreira profissional, porque nos acostumamos desde cedo a estudar muito, ler e discutir continuamente arquitetura. Quando nos formamos, insisti para que abríssemos logo um escritório, o que foi difícil naquele tempo, porque éramos de famílias de classe média, sem muitos recursos. O maior problema era arranjar clientes, mas eu achava que, com o tempo, tudo se resolveria. Quando nos formamos, em dezembro de 1987, os dois trabalhavam no escritório Aflalo e Gasperini, e eu fui na Fundação Artigas me apresentar para trabalhar. A Rosa Artigas disse que não tinha como pagar, mas aceitei, porque o que eu queria era estudar a obra de Artigas, que na época era pouco valorizada. O Angelo e o Razuk continuaram trabalhando durante o dia no Gasperini, e nos encontrávamos à noite, para tocar alguns trabalhos nossos e conversar.
Projetamos várias casas em Orlândia, cidade do Angelo. Nessa época, tivemos a sorte de não projetar para clientes ricos, e o orçamento sempre apertado nos obrigou a trabalhar com muito rigor e criatividade. Tentávamos convencer o cliente a fazer algo diferente, submetê-lo a ideias que ele não esperava, inclusive discutir novas formas de viver, de morar. Fizemos nesse início um ensaio do que faríamos depois. As dificuldades enfrentadas nessa fase, que não foi dolorosa, mas difícil, nos moldou para a vida profissional.
Sim, no início vinha mais da obra do Artigas, mas depois fomos conhecendo também outras manifestações, como Reidy, Lelé e o Oscar Niemeyer, que perpassa tudo isso. Queríamos saber como era possível fazer aquele tipo de arquitetura com tão poucos recursos. E entendemos que, para realizar uma obra correta, seria preciso caminhar dentro de um regime de austeridade, usar corretamente os materiais e obter a precisão na construção. Costumamos dizer que nossa arquitetura pressupõe poucas ações construtivas, mas que têm de ser muito precisas. Não podemos errar porque um passo errado - e isso já aconteceu algumas vezes, é óbvio -, pode comprometer toda a obra. Então, esse negócio de sucesso profissional é mais decorrente de um trabalho duro e criterioso do que de um talento excepcional.
Eu, o Angelo, o Razuk e outros colegas discutíamos sempre arquitetura, era um ambiente muito animado. O escritório não era só um espaço de trabalho, mesmo porque não tínhamos tantos trabalhos. Os concursos ficaram inseridos justamente nesse contexto de discussão. Para nós, era muito claro que a redemocratização traria a reorganização do acesso ao trabalho, o surgimento dos primeiros concursos públicos. Entendíamos que aquele era um momento de discussão, de participar de concursos nos quais iríamos colocar aquilo em que acreditávamos. Então, o concurso para o Pavilhão do Brasil na Expo 92 em Sevilha foi uma oportunidade única de termos acesso a um projeto grande e importante. Mas tínhamos três anos de formados e estávamos despreparados para o que tivemos de enfrentar. Fomos até convocados para uma discussão no Masp sobre a pertinência do projeto e discutiu-se como era possível que um projeto que retomava os preceitos do modernismo, teoricamente superado, fosse o vencedor. Foi como se um teto tivesse desabado sobre nossas cabeças. Mas, de certa forma, tínhamos visto o céu! O concurso serviu ainda de amálgama para uma série de projetos que estávamos fazendo, em que os clientes começavam a se diversificar. Apesar da pressão sofrida e da nossa inexperiência, o concurso foi muito importante. E foi ainda o momento da separação, pois o Alvaro Razuk não quis participar do concurso e começou a trilhar seu próprio caminho.
Nós ficamos no Conjunto Nacional até 1996, quando o Angelo foi trabalhar com o MMBB. Foi uma fase anterior ao Plano Real, com inflação alta e vacas magérrimas... Nós lecionávamos e desenvolvíamos alguns projetos à noite e nos finais de semana. No entanto, quando saímos da Brás Cubas, a crise foi se afunilando de tal forma que nos vimos obrigados a largar o escritório, mas mantendo o espaço alugado. O Angelo foi trabalhar com o Eduardo de Almeida e eu com o Ciro Pirondi.
Sim, durante o dia. Mantínhamos a estrutura do escritório, com estagiários trabalhando, e só íamos lá à noite. E continuávamos a dar aula. Só que num determinado momento, a situação ficou inviável. Quando terminou o trabalho no Eduardo de Almeida, o Angelo quis retomar o escritório, mas eu não podia. Foi quando o Angelo foi convidado para trabalhar no MMBB e tivemos de desfazer o escritório.
Sempre digo que tive de recomeçar minha vida profissional várias vezes. Desde que fiquei sozinho, passei a desenvolver a ideia de um escritório de estrutura pequena e maleável, que pudesse se associar a outros pequenos escritórios. E vem dando certo até hoje. O concurso para a sede do Sebrae, em Brasília, foi fruto desse entendimento entre nosso escritório e o Luciano Margotto. Recomeçar é estimulante... Sim, mas tem aspectos ruins também. É ruim porque você sabe que já poderia estar mais adiante na carreira. Por outro lado, a crise permitiu que eu dedicasse um ano inteiro ao projeto didático da Escola da Cidade. Depois, quando o Angelo saiu do MMBB, retomamos uma parceria mais assídua e abrimos, em 2003, o SPBR Arquitetos Associados, onde passamos um período muito produtivo, pois fizemos a Casa de Carapicuíba, alguns concursos internacionais e escolas para a FDE. No final de 2004, refletimos muito e, como eu precisava me dedicar ao doutorado, chegamos à conclusão de que era melhor a gente se separar mais uma vez. Comecei então a me organizar com os meus companheiros atuais no Gruposp. Ainda trabalho com o Angelo, mas de forma mais esporádica, como no concurso para o Museu da Tolerância, da USP, em 2005.
O ambiente hoje é muito mais favorável, o clima é de democracia e os alunos vivem experiências bem diferentes das nossas. Além disso, eles dispõem de um ferramental excelente, portanto, tecnicamente, têm melhores condições do que os estudantes da minha geração. Parodiando o Juca Kfouri quando ele compara a qualidade do futebol da época do Canal 100 (jornais esportivos exibidos antes das sessões de cinema) e do atual, acho que posso dizer a mesma coisa: não são piores nem melhores do que os da minha época de escola, mas são diferentes. Com a informática, a minha geração, dez anos depois de formada, teve, de certa forma, de reaprender a profissão. A diferença maior é que na minha época de estudante todos os debates tinham um invólucro ideológico, e isso era muito estimulante. Hoje, na maioria dos casos, há um esvaziamento desse embasamento ideológico, e o debate fica mais no aspecto formal. Na FAUUSP, os embates moderno versus pós-moderno eram, no final, ideológicos. Hoje, a pessoa se esquiva do ideológico e corre o risco de ficar só na questão do que lhe agrada ou do que não lhe agrada. Outro problema que me preocupa e que verifico entre certos alunos, é que eles não precisam da faculdade para ser o que vão ser. A família lhes garante educação, saúde, moradia, alimentação. A vida já está ganha, a faculdade é apenas um detalhe. E se o aluno entra na escola e não mergulha, não leva o estudo a sério, não permite ser transformado, é um grande desperdício. A educação é a única forma de transformar as pessoas...
São um reflexo da ausência de organização da nossa profissão no Brasil, da falta de um Colégio de Arquitetos, um órgão que não seja o Crea, uma entidade que determine o que o arquiteto tem de ser, que exija um exame específico para o exercício da profissão e a ampare em um sentido mais amplo. A ausência de uma organização profissional forte sugere uma estrutura de ensino frágil. As escolas são o que são porque a profissão é desorganizada e, em consequência, a sociedade exige muito pouco dos arquitetos.
Quando visito escolas da Colômbia, do Chile, da Argentina, do Uruguai fico impressionado com o comportamento dos estudantes, com o respeito ao professor, o que aqui é muito raro. Nossos jovens, talvez por uma questão cultural, atávica, confundem liberdade com anarquia. Em 2008, participei de um seminário em Montevidéu e fui visitar a exposição de trabalhos dos alunos. Trabalhos do primeiro ano, em sua grande maioria, apresentavam uma qualidade melhor do que os muitos de nossos alunos de quarto ou quinto ano. Lá, a faculdade de arquitetura tem 15 mil alunos, entram três mil por ano e a seleção acontece ao longo do curso. Aqueles que não conseguem acompanhar vão desistindo.
Nos Estados Unidos e em vários países da Europa, onde o ensino é público, se o aluno não tiver boas notas, não terá acesso aos melhores cursos universitários. Com isso, o estudante aprende a ter responsabilidade desde cedo. Quer se divertir, tudo bem, mas tem de estudar. Por meio de um intercâmbio, um dos nossos professores passou seis meses na faculdade de arquitetura de uma universidade pública da Flórida e voltou impressionado com o sistema deles. A cada ano, entram 120 alunos, escolhidos não por concurso vestibular, mas pelo currículo escolar, e durante os seis anos de curso, a cada dois anos, os que obtiveram as 20 notas mais baixas vão sendo eliminados. No final, apenas 60 alunos recebem o título de arquiteto. Para se associar ao American Institute of Architects, tem de fazer mais três anos de Master, e ter mais dois anos de estágio profissional comprovado. Então, no final, a formação do arquiteto é de 11 anos...
Está bem melhor do que já esteve, mas poderia estar melhor. Antes da crise econômica, houve uma intensificação das atividades, e todos os arquitetos estavam muito ocupados com seus trabalhos. Então, as discussões sobre a organização da profissão estavam amainadas, esmaeceram um pouco. Agora, com a crise, fica claro como a falta de uma estrutura profissional é prejudicial. Se tivéssemos um Colégio de Arquitetos, associado ao IAB como seu braço cultural, que organizasse concursos de uma maneira inquestionável, hoje poderíamos ter ampliado o acesso ao projeto ou à obra de muitos arquitetos. Os concursos são fundamentais pela questão cultural, da discussão que levantam, além de serem uma forma democrática de acesso ao trabalho. Mas, de forma geral, a arquitetura brasileira tem elaborado frases mais consistentes, o que tem chamado a atenção.
Sempre relutei em aceitar essas classificações, arquitetura moderna, pós-moderna, arquitetura contemporânea, agora arquitetura paramétrica... Acho que tem a arquitetura boa e a ruim. A questão da arquitetura sustentável, por exemplo, já está insuportável. O edifício pode até nem funcionar, mas tem de ser sustentável... Há projetos modernos, pós-modernos ótimos, e há outros péssimos. Quanto à questão do paradigma, se entendemos o moderno como uma atitude face à realidade, acho que ainda tem muita coisa que interessa. Estamos no século 21, mas somos ainda arquitetos do século 20. Não sei como serão os arquitetos do século 21, mas certamente todo legado ético do moderno, entendido no seu sentido mais amplo, permanece ou, pelo menos, deveria permanecer. Agora, se esse legado for reduzido à sua questão expressiva ou construtiva, aí já não sei...
Não é o instrumental que vai mudar a arquitetura, acho que a mudança tem outra base. O que é inegável, com o CAD, é que o raciocínio é, inexoravelmente, um pra um. Só que antes do CAD, quando desenhávamos, o que aparecia era a essência do que tínhamos pensado, reduzíamos uma série de alterações, simplificávamos muito. Hoje, com o CAD, qualquer desenho é desenho final, e isso talvez até torne o trabalho mais difícil, acho...
Facilita como produção, fica mais fácil para fazer o desenho. Mas o drama de projetar é mais complicado. Começo fazendo o croquis, vou para o computador, volto para o croquis, retomo o computador, até que chega uma hora que fico quase exclusivamente no CAD. Antes do CAD nós tínhamos muito mais liberdade de representação, tudo era mais sintético, e o desenho, às vezes, era muito mais bonito. O CAD é um instrumento que ajuda, claro, mas não trabalha sozinho, por trás dele tem de ter sempre um arquiteto. Fonte - Editôra Pini - Revista AU |
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