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quinta-feira, 9 de setembro de 2010 Início | Arquivos | Mande sua entrevista


ShowRoom

Solano Benitez
Coloca o Paraguai no foco da arquitetura internacional

 

Soluções novas, experimentação técnica e controle de custos norteiam o trabalho do arquiteto paraguaio Solano Benitez. "Ter pouco dinheiro é sempre uma condição interessante. Boas soluções surgem quando você elimina um zero do seu orçamento", assegura Benitez. Foi assim, por exemplo, que encarou a construção de seu escritório, o Gabinete de Arquitectura (que toca com os sócios Alberto Marinoni, Andrea Zelada e Gloria Cabral) na capital Assunção. "Quando construímos nosso escritório, enfrentamos o mesmo problema de um cliente qualquer: dinheiro, trabalho, satisfazer todas as necessidades, solucionar tudo", lembra. O resultado foi uma obra que traduz seu trabalho no dia-a-dia: o uso de tijolo cerâmico, por exemplo, aliado à experimentação técnica e à busca por soluções positivas para a sociedade. "É afrontar as condições atuais, fazer o que não se sabe, para desenvolver a sociedade", explica. A escolha do tijolo vem do baixo custo que tem no Paraguai - e é material constante em suas obras. Mas seu emprego vai além do célebre verso tijolo por tijolo num desenho lógico, de Chico Buarque. Aparece, por exemplo, na forma de tijolo reutilizado, exposto cru e com as pontas quebradas, na sala da diretoria da Unilever. E em obras como a casa Esmeraldina, Benitez inverte a lógica de assentamento: em vez de assentá-lo deitado, levantou-o, gerando economia no canteiro. Com uma espessura menor da parede, o que causaria instabilidade na hora do assentamento, optou por fazer painéis que, após montados e estáveis, são instalados no lugar projetado. Quase um pré-fabricado, construindo tijolo por tijolo num desenho mágico. E, como o próprio Benitez lembra, "Architecture starts when you carefully put two bricks together". Frase de Mies van der Rohe. "Mas a arquitetura começa no cuidado. No máximo de cuidado", destaca Benitez.

Como é sua relação com os arquitetos no Brasil?

Tenho o privilégio de ter uma amizade de 15 anos e uma relação de muita proximidade com Alvaro Puntoni e com Angelo Bucci, que foram os primeiros profissionais brasileiros que conheci. Há uma discussão muito intensa sobre trabalhos entre os arquitetos da nossa geração.


Existe algum tipo de cooperação entre o trabalho de vocês?

Estamos em um momento interessante: já temos 40 e tantos anos. Começamos a ocupar lugares nas estruturas das instituições, e o que começou com uma relação de amizade, estimulada somente pelo prazer de conhecer a obra do outro, passa a ter uma característica institucional mais forte, porque já se pode falar do relacionamento da FAUUSP com a universidade em que dou aulas em Assunção, por exemplo.


Com que tipo de ações?

Workshops, intercâmbio de estudantes, trabalhos de pesquisa conjuntos. É importante não somente chegar até o conhecimento e divulgá-lo, mas também fazer um novo conhecimento. Isso transforma positivamente nossa relação com a sociedade, com um vínculo muito mais forte. Não somente um vínculo especulativo entre quem detém conhecimento e quem não, mas de quem produz um conhecimento que é liberado para a sociedade.


Você fala sempre sobre o olhar para a técnica como caminho para nos desenvolver como sociedade.

O olhar do arquiteto não deve ser um olhar para a história da cultura, é um olhar para a história da técnica. É assim que tudo o que o homem fez e tentamos fazer melhor. Até algo que antigamente não deu certo, é possível que seja uma receita possível hoje. Nós, que trabalhamos com a "habitabilidade", temos esse olhar técnico, de pensar todo o tempo quais são as coisas boas e ruins e como tentar mudar isso.


Os arquitetos hoje fazem isso?

Estamos vivendo um momento um tanto difícil. Acredito que nos últimos anos, a condição visual da arquitetura era a condição máxima, toda a especulação da arquitetura era uma especulação formal, de quem projetava a forma mais assim ou mais assado. Muito incentivado até pelas revistas, que produzem imagens que são consumidas rapidamente. Mas acho que essa forma de produzir não se sustenta. A necessidade de produzir novos conhecimentos, de enfrentar os novos problemas, é sempre uma condição importantíssima. Hoje, por exemplo, é muito fácil conseguir informação. Você pode digitar "as dez melhores casas da América Latina" na internet. E chega uma coleção de dez residências, você introduz isso em um software tal que consegue uma casa que une uma obra com a outra a está tudo feito. E aí já não há diferença entre o projeto que pode fazer o mestre-de-obras, o desenhista, o designer, o arquiteto. Porque fica-se muito concentrado na visualidade. Por esse lado, o arquiteto deixa de ser importante dentro da estrutura social. Nós não podemos responsabilizar a sociedade de que o arquiteto não tem voz, porque o arquiteto não está acrescentando à sociedade. Mas à medida que o arquiteto se torna capaz de transformar sua vida, suas possibilidades de obra, ele se converte automaticamente em um motivador social.


Percebo uma participação ativa sua no canteiro de obras. Como é esse trabalho no dia-a-dia?

A participação nos diferentes momentos da produção de uma obra é sempre muito intensa e a presença no canteiro de obras é a possibilidade de ainda transformar o projeto. Em qualquer escritório troca-se o plano inicial o tempo todo até a entrega. Bom, nós ainda trocamos o projeto até começarmos a construir. Fazemos projetos com muita delicadeza, com planilhas de custos e trabalhamos com softwares de economia, para saber quais os gastos previstos, por exemplo. Mas há participação em todo o processo.


Na palestra na FAUUSP (em março/2009), nas duas vezes em que você mostrou casas, disse que não queria estar mostrando uma casa. Por quê?

O problema é filosófico sobre a residência individual. Quem tem dinheiro pode comprar um terreno em um bom lugar, mas quem não tem, compra um pior, longe, sem infraestrututra. A residência individual é um problema. Na minha cidade é a expressão natural. Assunção resolve o problema de crescimento da população com crescimento da cidade. Mas isso é insustentável. Temos de densificar nosso território, temos de esquecer o território individual como máxima expressão do trabalho.

Mas a residência tem outra característica: é preciso inventar alguma coisa para que seja interessante, porque todos conhecem o programa de uma casa. É preciso utilizar a experiência do projeto dessa casa para o futuro. Dar-se conta de que o interesse não está na casa em si, mas na possibilidade de se habilitar para construir depois outras coisas, como se fosse um laboratório de possibilidades de como o arquiteto irá conduzir seu trabalho e suas experimentações.

Fonte: Pini Web

 
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